
Já tentei dar ninguém quis
Não sou porto de abrigo
Sou o que nada me fiz
O que acabei sendo
É o que não se vê
O que sou perdendo
Texto que não se lê
"Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho."
Fernando Pessoa




Murcharam todas as plantas que havia
E meu jardim dói na corda do sangue quente
Que abranda sua força em tons de azia
No mármore gelado de alma indigente.
Já não chove há tempo que não conto
E alastra-se a areia pela minha cegueira
Como se um deserto se fizesse pronto
Feito segredo escondido na algibeira.
Há árvores a brotar que rasgam carne
Na pressa arrastada de se nascer,
Cada ornato selvagem que me guarne
É uma vida enfeitada de apodrecer.
Trago o frio como órgão interno,
A noite é a linfa por mim como o acaso,
Em meus pulmões respira-se Inverno
E neva, neva em meu monte Parnaso.
Se me olho ao espelho não vejo nada
Espectro que se faz naquele amaro sabor
De maré baixa no cais de alma varada
Pelas adagas glaciais do funesto amor.
João Vasco
Foto de Carlos Lopes Franco
Sinto-me pequeno, minúsculo,
Um ponto indistinto na imensidão
Das coisas vãs, das coisas céleres,
Das coisas feitas, das coisas a fazer
Hoje é um dia do fim e
Os gritos que não se ouvem
São minhas feridas do tempo
Podiam-me doer os ossos ou os músculos
Mas dói-me o princípio de mim,
Dói-me lá dentro onde não chego
No quarto escuro de águas do mar,
E no pórtico acabrunhado pelo mármore
Morre uma criança descalça
Que perdera a música do olhar
Meus dedos enfastiados
Têm a dor das teclas de um piano,
No meu estômago pousou uma pedra,
Um seixo boleado pela chuva
De vidro que saltou das janelas
E invadiu a minha ausência
Que se fazia lá fora
As gaivotas que poisam no meu beiral
São rasgos de memória que bradam
Clemência aos céus estranhos,
À espera da cidade do sossego,
E meus olhos são de nenhum olhar
Porque os latidos desesperados
Ouvem-se para lá do som
A estrada é uma praia deserta
Que meus pés já não desejam,
As flores já não são da Primavera
E as pessoas são emigrantes,
Retratos distorcidos
Que se esqueceram da linguagem
Numa carroça apodrecida
Eu não me consigo mexer
Porque a carne vazia é uma pedra
Que o vento fustiga com afecto,
O silêncio é meu pensamento
Se me deixo levar pela tarde
Que nasceu no meu peito
Agora que vi que mataram o amor
João Vasco
Foto de Margarete da Silva
Enquanto me esmiuçava ferozmente
Por entre paredes, janelas e sóis,
Selvas, desertos e águas coloridas
Não chegava a tocar a cor dos dias,
Até que , depois de procura rebuscada,
Encontro o que não procurava
Porque nada procurava a procurar,
Dava azo à minha passada,
Lugar de perguntas incompletas,
Respostas ausentes ou discretas,
E nesta viagem que me fiz em acaso
Dou com Mar doce espraiado,
Um caudal belo de envergonhado
A roçagar-me as entranhas,
Segui esse caminho que se alastra
E desemboca na caixa de iniciação
O comboio sibilante
A que chamam coração,
Primeiro vi num canto a teimosia
À entrada estava o perfeccionismo,
Mas o que mais me espantou
Foi ver num sítio aconchegado
Meu amor por ti
Esse fresco inacabado
Já meu traço de personalidade.
João Vasco

Não me roubem o amanhã. Nem tampouco o mudem. Que ele sempre esteja nesse sítio desgraçado onde só ele se dispõe sem sequer ser notado. Lá repousam meus olhos, aqui ficam minhas pernas. Onde sinto cansaço? Na roupa que me veste, nos sapatos que me levam.
Vou e venho. Por sorvos irregulares. E os dias não se fecham. Abarco o razoável de modo a que possa sentir-me afastado do absurdo. Vejo-me dotado de sensibilidade para parar no momento em que a paz pode ser posta em causa. Pensar isto é já ter abdicado dela. Haverá outro caminho que não este? Não, não há mais que sono numa cama feita de dormir. E quando me cheira a terra molhada sei que caibo na minha visão. E assim respiro como se não fosse obrigado a fazê-lo.

Saber-me morto é saber-me livre. Quando carrego a verdade como sendo parte de mim receio apenas a imaginação. O concreto, o real é manso, feito de raízes profundas agarradas ao fiel da vida. Sei-me em destino, sei-me em ciência. Expurgo, inexoravelmente, a força bruta do medo.
O medo é um dia da semana. A morte é a chuva que asperge delicadamente os campos verdejantes da ilusão. Se sorrio é porque já sei que a chuva molha-me por cada vez que me toca com a solenidade cândida de seus pingos, esse bambolear de dedos nos afagos dados nas teclas de um piano.
Tenho tempo. Sei o que me basta. Sou um boneco de neve que fita o sol como um abraço subentendido na distância das diferenças. Há sempre mais. Um dia que houver por aí, indigente, surgirá, de repente, se vier, se vier…A água que o calor evapora já não é espera nem demora é um ataque de lucidez.
Quantas palavras são pudor, quantos silêncios são nudez! A liberdade faz-se em cada instante por entre os muros do pensamento. Já me vi. Vi-me nu, vi-me cadáver, vi-me nada. Esvaziei-me. Assim sou o que acontece. Morto, matei a morte. Agora tenho-me a mim e nada me pesa. Os dias são demasiado fáceis.

A chuva que bate no vidro da janela
A dizer que não, que não é agora
Como se houvesse uma certa hora
Para se pintar uma aguarela…
Tamanha falta de imaginação,
Dispendioso pensamento
Que se faz céu e pegajoso chão
Mar e tempo de invento.
A chuva que bate no vidro da janela
Em gestos cinzentos a pau de carvão
Traça esquissos sabor a canela,
Memórias pela palma da mão.
E a melodia da cor da tristeza
Em pintura sonora de solidão
É lançada nas calhas da incerteza
Pingo após pingo, sem conclusão.
A chuva que bate no vidro da janela
A acenar como quem chega desperto
Ou como quem vai por apertada viela
Na senda de si mesmo, já tão perto,
Mas que não chega mais que o vento,
Um toque piano de quem não existe,
Um ardor cruzado de sentimento,
Uma distância inteira que persiste.

Luto como um louco para vencer tudo o que sinto como tua ausência. A tua distância é a luz apagada nesta minha casa rústica de palavras. Fecho os olhos e vejo teu sorriso vivaz a tactear, indolente, meu âmago. Recordo tua voz melíflua que me afaga, terna, como uma brisa amena de Primavera. Sem ti sou pobre, um mendigo andrajoso, um eremita errante, um náufrago da vida. Nas mãos carrego todos os carinhos que não te consegui entregar. Sou um prisioneiro de minha vontade, um súbdito do amor. Não sei deixar de gostar de ti. Cada segundo de mim é feito a pensar em ti, meu imperativo categórico é amar-te como quem respira.
Sou pequeno demais, demasiado humano até, para trazer comigo este colosso infinito, feito oceano de amor, que cultivo por ti como quem se esmera a cuidar seu jardim. Se me olhares nos olhos pegar-me-ás no coração e verás então que as montanhas da beleza começam no sorriso de um olhar apaixonado.
Espero por ti como uma criança inocente na paragem do autocarro. Os dias são muitos, os minutos são pressa, minha vida é só esta. Ainda que sozinho mas sem nunca deixar de te amar, vou até onde a rua me levar...

Foto de Tariana Mara
Fiz um esforço para te tirar de mim. Fechei os olhos e vi o manto branco infinito da ausência. Era a paz dos quietos, dos mudos, dos oprimidos, dos desfeitos pelo olhar. Ali morria como quem espera placidamente a morte, conformado por esse destino. Não! Quero sentir o vapor dos dias a restolhar em meus poros, quero passar noites em claro sobrepujado pela ansiedade, quero chorar copiosamente, quero correr e saltar, quero berrar como um louco, quero-te olhar, quero-te abraçar, quero-te beijar desalmadamente…Beijar é partir, tirar os pés do chão e incandescer.
Sim, tenho as mãos frias e os olhos a sobejar sal. As mãos não me cabem nos bolsos, onde as pôr? E os olhos… são chuvas de Abril. Inspiro sofregamente, por sorvos austeros, o ar rarefeito de quem se vai perdendo pela cadência do tempo. Não resulto na paz. Eu sou turbulência, ardor e paixão! Onde vais? Chega-te cá, de mansinho, e aconchega-te a este cais abandonado feito da calidez do afecto. Agita-me intempestivamente, faz-me tropeçar no teu sorriso e soergue-me, lentamente, com o calor de tuas mãos. Entrega-me sussurros, leva-me a saudade, esconde-te em meu peito e gasta meu corpo veemente.
Vou-me calar e aspirar o silêncio que se ergue na calmaria. Faça-se uma melodia de arrepio! São teus passos tal sinfonia, murmúrios de teu coração. Perdi-me, embevecido, nas ruas por onde me levaste. Aqui não há caminho, há lugar. Roubaste-me toda a razão, sou mendigo assolapado, pássaro fora de estação.
Está quente, está frio, está longe, está perto, está em mim esse rio, a certeza do incerto. Penso em ti e não me canso. Quero mais, mais do que o que existe porque em querer me existo.
Onde sinto? Sou sentir, sou a calçada do entretanto. E por ti, tanto, tanto…
Percebi-me cientista, reinventei o amor. Estava gasto demais, em evidente deliquescência, a cair em esquecimento. Usei um pouco de ti e nasceu uma flor. Frágil, indefesa mas de um enleio inefável. Colhi-a com o teu olhar, acariciei-a com a seda de teus cabelos e plantei-a em meu coração regada por tuas lágrimas. Viçosa se ergue em meu jardim!
Se te fizeres ruínas levarás parte de mim…amar-te é ser-me assim.

Que fazes em meu coração?
Cócegas, sorrisos e tropeções
Casa na margem de meu rio
Toque sedoso de cálida mão
Comboio erróneo de estações
Suspiro enovelado de atavio
Beijo oferecido a receber
Mar de lábios a chover.
Que fazes em meu coração?
Barcos de papel a navegar
Cartas de amor em aluvião
Castelo de paredes de teu olhar
Clepsidra de lágrimas tuas
Tantos sóis e tantas luas,
Meu caminho é feito a vidrar
Na certeza desse já ser meu lugar.
Que fazes em meu coração?
És vida, és cor, és candura
És sangue que fervilha e depura
És meu tecto e és meu chão,
Em meu bolso teu sorriso
Em minhas mãos teu olhar
Em meus sonhos teus lábios
Águas para me afogar.
Que fazes em meu coração?

Se eu pudesse…ai, se eu pudesse…apenas poder, se assim me faço entender. Porque não é assim tão simples poder-se poder. Só isso, poder. Se eu puder…é um poder poder. Só pensar em poder já é poder. Não tudo, mas um pouco que brota. E por sorvos lentos se vai fazendo a forma de se poder. Tudo lá vai por uma chama, uma faísca, uma centelha, um nada…Mas para isso há que poder. Sem se poder, não se começa. Ai, se eu pudesse poder não haveria tempo para amanhã. Se eu pudesse…até lá não posso mais que esperar. Esperar pelo que não sei, pelo que não posso, pelo que não há…e se eu pudesse?
Se houver espaço no tempo, procurar-me-ei, às cegas, em busca de nada, por nenhures. Tentearei o escuro à espera das cores que se sentem por antecipação. Todas as matizes invisíveis que se alcançam quando se larga a compreensão e se avança sem rédeas pelos trilhos do vazio. Se há algo mais que caminho a ser feito pelos passos, encontrá-lo-ei. A força da surpresa justifica o esforço desmiolado da procura. Porque nos prados da minha existência há espantalhos deslavados a lembrar-me de mim, e os rios que secaram sob pontes de outrora são como os moinhos isolados nas montanhas do ser, rudes figuras do tempo no teatro dos esqueletos.
Ver, rever…a presença isenta de tacto, a aleatoriedade dos instantâneos e a certeza das impressões abandonadas sem critério ou intenção. Que é isto que me interessa só porque não sei o seu lugar? Nem tão-pouco o substrato. É meu ciclo vicioso, a fadiga de me fazer confuso. Coisas simples, porque não? Ó somente coisas, tais como coisas, sem classificação, coisas que o são por o serem, nessa tão fiel exactidão. Coisas….Raios! Tenho cansaço deste cansaço.
Bonita distracção esquadrinhar-me! Hei-de dar de caras comigo. E quando me vir, será como nada. Ali, defronte de mim, o que me escapa por me ser o que tanto me é sem me ser mais do que isso, como se houvesse outro modo de ser. A distância entre duas encostas deixa aflorar um vale. E há tamanha robustez neste motivo…
Há diferenças que não se vencem. Escurece e sobrevém uma suave acalmia. O repouso é resposta para que as coisas deixem de existir. Eu desapareço sempre que fecho os olhos…

Não caibo em mim, me vejo
Um refém de meu desejo.
Que tamanho tenho?
Sou mais que meu alcance,
A fronteira que me desenho
É eu olhar-me de relance
E ver a medida de mim.
Ou serei eu tão pequeno
E esta dúvida é já aceno
De que eu suspeito ser assim
Uma linha do horizonte,
Uma coisa sem tamanho,
Um rosto a ver-se defronte,
Um tempo sem bocanho.
Ser-se como se é, desse modo,
Pedaço maior de espaço,
Corpo em forma de abraço,
Um jeito a que me acomodo.
Sem se saber como se faz tal
Tudo tão gasto, tão banal.
As coisas são a acontecer
Pela força inelutável dos modos,
Por entre o viver e o morrer
A água afinada a bolear os godos.
E isto depois de dito, onde está?
Não se fez diferente em nada,
Uma dúvida destas começará
Assim que esteja acabada.

Sei-me hoje como posso saber-me sendo como me sou. E que isto é? É uma história contada como feita de verdade. Uma entrada na casa escusa que até pode ser de mim. Um enigma, um vapor, um eco distante, uma sombra esguia, uma espera apertada por um sinal de destino que se concretize. Porque tanto se espera… As coisas feitas vazias como barcos encalhados nos momentos de espera desesperada de quem aguarda pelo sonho que se sonha no tempo sonhado.
Cada dia vê irromper a crueza da noite. Só queria ser pedaço de céu acariciado pelas estrelas num beijo cálido de luar. Mas debaixo das pedras há quanto silêncio! E os rios continuam a seguir para o mar…Ai, quem me dera ter mais que esperança desbocada! Ser grande dentro de mim, sentir o que sinto que possa sentir já a senti-lo, esvaziar-me de futuro, ser-me, já…
Nunca devia ter crescido, deixar-me menino, ter vistas curtas…
Pensar. Sempre se pensa, até quando se pensa em não pensar, pensa-se em não pensar. Se conseguisse parar, talvez voltasse a ser criança…Há coisas em mim que não sei como o são. Sou uma pergunta. Alguém me responde?
Não há mais que nada em tudo o que é nada mais que tudo. Assim é-se maior, é-se ardente e escrevem-se as páginas alvas do livro da intimidade.
A roda que gira, que vai, que avança em seu movimento perpétuo, jamais se cansa. Sente-se o excesso vibrante dos sentimentos nas partículas de vida. Suave e intensa acontece esta hora arrastada pelos princípios do prazer. O silêncio é uma tentação, nele é-se inteiramente humano a respirar o músculo da vida, força colossal de existir. Somos sangue fervilhante escondidos na candura de um olhar.
Silêncio! É tempo de viver!
Tenho que apanhar o tempo
Na estrada que desponta.
Meus passos, ao destempo,
São a vida que não conta.
E os sons que me perfuram
Como pensamentos ansiosos
Cedem-me ecos que perduram
Além dos vazios desditosos.
Revejo-me pelo sábio costume
Dos usos feitos no vício de fuga
E o ardor da chama de meu lume
É o palco em que tudo se conjuga.
Sou náufrago arribado à areia
Da praia esboroada de meu ser,
Uma morada de casa cheia
Este meu modo de me entreter.Quando se é uma gota no oceano, um grão de areia no deserto, uma árvore na floresta, as palavras não ganham corpo, esvaecem como poeira à mercê do vento. Estes conceitos insepultos ficam latentes, à espera que um instante futuro os faça manifesto explícito da alma. Mas não há nada mais que isto quando a voz não é ouvida. Sem ouvintes entranha-se o silêncio. Quanto silêncio se suporta? Quando o silêncio é mais que interstício perde-se o ritmo da dança. Abraça-se o seio da distância, sorvendo em tragos soluçantes os caminhos da loucura. Tamanha força da sinfonia da solidão! O silêncio é a minha morte. Só assim se faz minha vida.
João Vasco

Menina que te atreves pelos campos
Mimosa por entre a urze e o riacho
Mirada pelo sol e os céus escampos
És a alma, sentimento e recacho.
Mulher que te emancipas pelos dias
Graciosa nas verbas do momento
Com teu olhar singelo tudo anedias
És a luz, o fogo e o invento.
Musa vagante pelo sabor do mar
Suave em teu ondeante desvelo
Teu canto é embalo a marulhar
És a brisa, frescor e concelo.
Estarei a dizê-lo assim tão baixinho
Como um sussurro envergonhado,
Este, por ti, desmedido carinho
Que não ouças ser-te declarado?

Vejo as ruas dos meus passos e os vultos que as preenchem como se fosse um estranho a absorver a paisagem e a dinâmica de um lugar novo. Perdi a noção do caminhante que fui. Onde me ficcionei, onde fui figura…O tempo é um comboio e só agora percebi que os seus melhores lugares são os que não ficam à janela. Da janela vê-se ficar para trás intimidade e estética do sentir. E afinal foi assim, toldado por este teatro emotivo, que me distraí sem perdão. Em suma, que me importa isso? Quase nada. Quase…Desvarios…E já nem sequer vou à janela.

Chuva clandestina, torrente desordenada, alvoroço por culpa das ideias, das imagens, mero resultado de existir. É somente o único modo de se ser. Ou tão-só o meu, aquele que consigo conhecer.