domingo, 27 de setembro de 2009

Definição



Foto de José Rui Moreira Correia
Tenho demais comigo
Já tentei dar ninguém quis
Não sou porto de abrigo
Sou o que nada me fiz
O que acabei sendo
É o que não se vê
O que sou perdendo
Texto que não se lê
João Vasco

quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Foto de Brassai

Os meus pés pedem uns sapatos com um longo caminho. Vou-me fazer correr, desarvorado, enquanto o tambor do peito faz da minha vida um teatro. Vou correr até que consiga fugir de mim e, enquanto lá não chego, vou esquecer a memória. Estou cansado ao ponto de não pensar parar de correr. E até lá não sei que mais possa fazer. Continuarei até que a mudança tome conta de mim. E afinal tudo tanto na mesma…
Não há tempo que chegue para que a paz ganhe. Há-de sempre haver perguntas de secessão. Tivesse eu tempo fora do corpo como tenho dentro de mim. As coisas sem tamanho que existem no tamanho meu… Houvesse espaço para o abandono das regras que assombram a palavra liberdade. Há sempre uma vontade calada que se alimenta das perguntas que alcançam mais que a resposta de silêncio a que sobrevivem.
Invejo a impassibilidade e a solidez das pedras. Aquela robustez que nunca se domestica num olhar… Por vezes esqueço-me até que respiro. Mas o peso da irredutibilidade agita, inevitavelmente, as águas do vale de repouso. Deixaram que soubesse que existo e ninguém é tão alguém até ao momento em que se apercebe como alguém assim ninguém tão alguém.
Não deixo de procurar o que não se define mas que acaba por me definir: o que é não o sendo.
Há demasiados minutos, o que não vem fica em pensamento num incêndio de interior. Faz tempo que ardo. Sou tição desconfiado, receoso que o vento me apanhe como cinza. Esta chama é lenta, ainda tem muito lume para fazer. Lá fora o corpo faz-se, humedecido pelos dias. Se eu não me soubesse até não repararia na tenacidade da minha sombra…
João Vasco

terça-feira, 12 de maio de 2009



Foto de Marta Ferreira
Como se é sendo? Não fora a violência inexplicada do modo individual de se existir e o mundo seria pequeno. Mas não tem tamanho. É do tamanho de um olhar. Há montanhas e vales por detrás de um olhar. E quando os olhos se fecham reinventam-se paisagens.
Ser não é mais que continuar. Sem antes nem depois, apenas sob a fímbria da vida, a perdurar, sem escolha. É a submissão humana, o completo retrato da existência. Os dias não têm novidades para o que é imutável. Para quê o cansaço?
Mas o que me escapa dói bem lá no fundo. Pudesse esquecer e seguir…
Como se vive? Assim, de caras, tudo é dado. Depois do espanto o que subsiste? Resta a fuga, o acto teatral no silêncio, a corrida desarvorada. E mesmo assim nada. Esta palavra assusta. E quem manda é sempre o medo. E depois disso uma atracção fatal pela tristeza nasce no âmago de cada coração. Como se fosse inevitável esse caminho. Malditas entranhas que não me deixam ser objecto inanimado sob raios de sol!
É no alvoroço do peito que se faz a beleza. Que os dias se apaguem em amor. Entrementes que faremos nós nestas águas?

João Vasco

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009



Foto de Veselin Stefanov Kanchev
Quando vejo onde estou sei que não estou em lado nenhum. Porque aqui não se está, confunde-se. Estou sempre parado no mesmo lugar e esse lugar sou eu. Tanto estranho à minha volta e eu sou o estrangeiro a aprender-me. São segundos de vida a agarrar todas as outras horas. As que se vivem tão depressa ou as que se arrastam em acerbo. As vozes vão desaparecendo, o olhar fica diáfano e sobram o pensamento e as raízes da pergunta. E sempre regresso aos muros da irredutibilidade. Entrecortam a seda dos dias. Fora de tudo, fora de nada, ausente. Ninguém me ensinou o que é não entender o começo, o sabor das pausas. Aqui não vem ninguém. Deixemo-nos, tais como assim. Não hei-de dizer que não sei onde estou. Não há-de ser dito. Porque não faz falta. Há coisas que não se fazem. E nem vale a pena perguntar porquê. A dúvida é a minha submissão.
É-se, aqui. Porque tenho que cá vir tantas vezes?
João Vasco

domingo, 11 de janeiro de 2009


Foto de SaMY

Num dia arrastado de que não tenho memória vi-me em circunstância de pensamento. Rasgado pela claustrofobia do tempo, tão de chofre, que nem permitiu espavento. Livre em ideia, confrontei-me com o peso de mim. Em pouco tempo fiquei exaurido. Não havia descanso na continuação perpétua do meu confronto interior. E onde jaziam as respostas?
Desde então, no interior de minha cabeça dói-me um zumbido. Uma janela se abriu e entrou a luz reveladora. Uma luz tão branca que, em vez de me permitir ver, cegou-me. Desordenado por ter tanto ao meu dispor e tão pouco para o poder enfrentar, este foi o dia em que me conheci.
Após a descoberta já não se regressa. O retrato é novo entre os muros. Aos poucos, o desgaste já não me acossava e comecei a vislumbrar, a custo, os contornos da realidade ruminada. Habituei-me.
Agora já sei olhar para trás e ver-me. Como espectador que avalia a sua representação na algazarra da vida. Em mim tudo era vidro quebrado, aqui vive-se nas águas do silêncio. Gastava-me a sentir o peso áspero da respiração, a sopesar a gravidade do pensamento. Nunca estava pronto para me abandonar, os meus pés eram os meus passos. Lá havia a sombra.
Agora já não dói.
João Vasco

sábado, 29 de novembro de 2008

O frio é meu orgão interno


Foto de Mara Mitchell

Murcharam todas as plantas que havia

E meu jardim dói na corda do sangue quente

Que abranda sua força em tons de azia

No mármore gelado de alma indigente.


Já não chove há tempo que não conto

E alastra-se a areia pela minha cegueira

Como se um deserto se fizesse pronto

Feito segredo escondido na algibeira.


Há árvores a brotar que rasgam carne

Na pressa arrastada de se nascer,

Cada ornato selvagem que me guarne

É uma vida enfeitada de apodrecer.


Trago o frio como órgão interno,

A noite é a linfa por mim como o acaso,

Em meus pulmões respira-se Inverno

E neva, neva em meu monte Parnaso.


Se me olho ao espelho não vejo nada

Espectro que se faz naquele amaro sabor

De maré baixa no cais de alma varada

Pelas adagas glaciais do funesto amor.


João Vasco

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Chuva de Vidro


Foto de Carlos Lopes Franco

Sinto-me pequeno, minúsculo,

Um ponto indistinto na imensidão

Das coisas vãs, das coisas céleres,

Das coisas feitas, das coisas a fazer

Hoje é um dia do fim e

Os gritos que não se ouvem

São minhas feridas do tempo


Podiam-me doer os ossos ou os músculos

Mas dói-me o princípio de mim,

Dói-me lá dentro onde não chego

No quarto escuro de águas do mar,

E no pórtico acabrunhado pelo mármore

Morre uma criança descalça

Que perdera a música do olhar


Meus dedos enfastiados

Têm a dor das teclas de um piano,

No meu estômago pousou uma pedra,

Um seixo boleado pela chuva

De vidro que saltou das janelas

E invadiu a minha ausência

Que se fazia lá fora


As gaivotas que poisam no meu beiral

São rasgos de memória que bradam

Clemência aos céus estranhos,

À espera da cidade do sossego,

E meus olhos são de nenhum olhar

Porque os latidos desesperados

Ouvem-se para lá do som


A estrada é uma praia deserta

Que meus pés já não desejam,

As flores já não são da Primavera

E as pessoas são emigrantes,

Retratos distorcidos

Que se esqueceram da linguagem

Numa carroça apodrecida


Eu não me consigo mexer

Porque a carne vazia é uma pedra

Que o vento fustiga com afecto,

O silêncio é meu pensamento

Se me deixo levar pela tarde

Que nasceu no meu peito

Agora que vi que mataram o amor


João Vasco

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Meu amor por ti é um traço de personalidade


Foto de Margarete da Silva

Enquanto me esmiuçava ferozmente

Por entre paredes, janelas e sóis,

Selvas, desertos e águas coloridas

Não chegava a tocar a cor dos dias,

Até que , depois de procura rebuscada,

Encontro o que não procurava

Porque nada procurava a procurar,

Dava azo à minha passada,

Lugar de perguntas incompletas,

Respostas ausentes ou discretas,

E nesta viagem que me fiz em acaso

Dou com Mar doce espraiado,

Um caudal belo de envergonhado

A roçagar-me as entranhas,

Segui esse caminho que se alastra

E desemboca na caixa de iniciação

O comboio sibilante

A que chamam coração,

Primeiro vi num canto a teimosia

À entrada estava o perfeccionismo,

Mas o que mais me espantou

Foi ver num sítio aconchegado

Meu amor por ti

Esse fresco inacabado

Já meu traço de personalidade.


João Vasco

domingo, 6 de julho de 2008


Foto de Lenice Barbosa
Amanhã é sempre o dia em que há tempo. Hoje não. Hoje o tempo espera. Mas amanhã, sim, as coisas têm espaço para ter vida. E entre hoje e amanhã há um abismo de vontades. Amanhã é a gaveta do armário, o bolso do casaco, o guarda-chuva na despensa. É libertação, é engano, é escolha, é resguardo.

Não me roubem o amanhã. Nem tampouco o mudem. Que ele sempre esteja nesse sítio desgraçado onde só ele se dispõe sem sequer ser notado. Lá repousam meus olhos, aqui ficam minhas pernas. Onde sinto cansaço? Na roupa que me veste, nos sapatos que me levam.

Vou e venho. Por sorvos irregulares. E os dias não se fecham. Abarco o razoável de modo a que possa sentir-me afastado do absurdo. Vejo-me dotado de sensibilidade para parar no momento em que a paz pode ser posta em causa. Pensar isto é já ter abdicado dela. Haverá outro caminho que não este? Não, não há mais que sono numa cama feita de dormir. E quando me cheira a terra molhada sei que caibo na minha visão. E assim respiro como se não fosse obrigado a fazê-lo.

João Vasco

domingo, 1 de junho de 2008


Foto de Rui Fernando Correia


Saber-me morto é saber-me livre. Quando carrego a verdade como sendo parte de mim receio apenas a imaginação. O concreto, o real é manso, feito de raízes profundas agarradas ao fiel da vida. Sei-me em destino, sei-me em ciência. Expurgo, inexoravelmente, a força bruta do medo.

O medo é um dia da semana. A morte é a chuva que asperge delicadamente os campos verdejantes da ilusão. Se sorrio é porque já sei que a chuva molha-me por cada vez que me toca com a solenidade cândida de seus pingos, esse bambolear de dedos nos afagos dados nas teclas de um piano.

Tenho tempo. Sei o que me basta. Sou um boneco de neve que fita o sol como um abraço subentendido na distância das diferenças. Há sempre mais. Um dia que houver por aí, indigente, surgirá, de repente, se vier, se vier…A água que o calor evapora já não é espera nem demora é um ataque de lucidez.

Quantas palavras são pudor, quantos silêncios são nudez! A liberdade faz-se em cada instante por entre os muros do pensamento. Já me vi. Vi-me nu, vi-me cadáver, vi-me nada. Esvaziei-me. Assim sou o que acontece. Morto, matei a morte. Agora tenho-me a mim e nada me pesa. Os dias são demasiado fáceis.

João Vasco

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Chuva na janela


A chuva que bate no vidro da janela

A dizer que não, que não é agora

Como se houvesse uma certa hora

Para se pintar uma aguarela…

Tamanha falta de imaginação,

Dispendioso pensamento

Que se faz céu e pegajoso chão

Mar e tempo de invento.


A chuva que bate no vidro da janela

Em gestos cinzentos a pau de carvão

Traça esquissos sabor a canela,

Memórias pela palma da mão.

E a melodia da cor da tristeza

Em pintura sonora de solidão

É lançada nas calhas da incerteza

Pingo após pingo, sem conclusão.


A chuva que bate no vidro da janela

A acenar como quem chega desperto

Ou como quem vai por apertada viela

Na senda de si mesmo, já tão perto,

Mas que não chega mais que o vento,

Um toque piano de quem não existe,

Um ardor cruzado de sentimento,

Uma distância inteira que persiste.


João Vasco

sábado, 3 de maio de 2008

"Até onde a rua me levar" de Lara Pires

Luto como um louco para vencer tudo o que sinto como tua ausência. A tua distância é a luz apagada nesta minha casa rústica de palavras. Fecho os olhos e vejo teu sorriso vivaz a tactear, indolente, meu âmago. Recordo tua voz melíflua que me afaga, terna, como uma brisa amena de Primavera. Sem ti sou pobre, um mendigo andrajoso, um eremita errante, um náufrago da vida. Nas mãos carrego todos os carinhos que não te consegui entregar. Sou um prisioneiro de minha vontade, um súbdito do amor. Não sei deixar de gostar de ti. Cada segundo de mim é feito a pensar em ti, meu imperativo categórico é amar-te como quem respira.

Sou pequeno demais, demasiado humano até, para trazer comigo este colosso infinito, feito oceano de amor, que cultivo por ti como quem se esmera a cuidar seu jardim. Se me olhares nos olhos pegar-me-ás no coração e verás então que as montanhas da beleza começam no sorriso de um olhar apaixonado.

Espero por ti como uma criança inocente na paragem do autocarro. Os dias são muitos, os minutos são pressa, minha vida é só esta. Ainda que sozinho mas sem nunca deixar de te amar, vou até onde a rua me levar...

João Vasco

quinta-feira, 1 de maio de 2008


Foto de Tariana Mara

Fiz um esforço para te tirar de mim. Fechei os olhos e vi o manto branco infinito da ausência. Era a paz dos quietos, dos mudos, dos oprimidos, dos desfeitos pelo olhar. Ali morria como quem espera placidamente a morte, conformado por esse destino. Não! Quero sentir o vapor dos dias a restolhar em meus poros, quero passar noites em claro sobrepujado pela ansiedade, quero chorar copiosamente, quero correr e saltar, quero berrar como um louco, quero-te olhar, quero-te abraçar, quero-te beijar desalmadamente…Beijar é partir, tirar os pés do chão e incandescer.

Sim, tenho as mãos frias e os olhos a sobejar sal. As mãos não me cabem nos bolsos, onde as pôr? E os olhos… são chuvas de Abril. Inspiro sofregamente, por sorvos austeros, o ar rarefeito de quem se vai perdendo pela cadência do tempo. Não resulto na paz. Eu sou turbulência, ardor e paixão! Onde vais? Chega-te cá, de mansinho, e aconchega-te a este cais abandonado feito da calidez do afecto. Agita-me intempestivamente, faz-me tropeçar no teu sorriso e soergue-me, lentamente, com o calor de tuas mãos. Entrega-me sussurros, leva-me a saudade, esconde-te em meu peito e gasta meu corpo veemente.

Vou-me calar e aspirar o silêncio que se ergue na calmaria. Faça-se uma melodia de arrepio! São teus passos tal sinfonia, murmúrios de teu coração. Perdi-me, embevecido, nas ruas por onde me levaste. Aqui não há caminho, há lugar. Roubaste-me toda a razão, sou mendigo assolapado, pássaro fora de estação.

Está quente, está frio, está longe, está perto, está em mim esse rio, a certeza do incerto. Penso em ti e não me canso. Quero mais, mais do que o que existe porque em querer me existo.

Onde sinto? Sou sentir, sou a calçada do entretanto. E por ti, tanto, tanto…

Percebi-me cientista, reinventei o amor. Estava gasto demais, em evidente deliquescência, a cair em esquecimento. Usei um pouco de ti e nasceu uma flor. Frágil, indefesa mas de um enleio inefável. Colhi-a com o teu olhar, acariciei-a com a seda de teus cabelos e plantei-a em meu coração regada por tuas lágrimas. Viçosa se ergue em meu jardim!

Se te fizeres ruínas levarás parte de mim…amar-te é ser-me assim.


João Vasco

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O único lugar


Foto de Margarete da Silva

Que fazes em meu coração?

Cócegas, sorrisos e tropeções

Casa na margem de meu rio

Toque sedoso de cálida mão

Comboio erróneo de estações

Suspiro enovelado de atavio

Beijo oferecido a receber

Mar de lábios a chover.

Que fazes em meu coração?

Barcos de papel a navegar

Cartas de amor em aluvião

Castelo de paredes de teu olhar

Clepsidra de lágrimas tuas

Tantos sóis e tantas luas,

Meu caminho é feito a vidrar

Na certeza desse já ser meu lugar.

Que fazes em meu coração?

És vida, és cor, és candura

És sangue que fervilha e depura

És meu tecto e és meu chão,

Em meu bolso teu sorriso

Em minhas mãos teu olhar

Em meus sonhos teus lábios

Águas para me afogar.

Que fazes em meu coração?


João Vasco

terça-feira, 25 de março de 2008


Se eu pudesse…ai, se eu pudesse…apenas poder, se assim me faço entender. Porque não é assim tão simples poder-se poder. Só isso, poder. Se eu puder…é um poder poder. Só pensar em poder já é poder. Não tudo, mas um pouco que brota. E por sorvos lentos se vai fazendo a forma de se poder. Tudo lá vai por uma chama, uma faísca, uma centelha, um nada…Mas para isso há que poder. Sem se poder, não se começa. Ai, se eu pudesse poder não haveria tempo para amanhã. Se eu pudesse…até lá não posso mais que esperar. Esperar pelo que não sei, pelo que não posso, pelo que não há…e se eu pudesse?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Henri Cartier-Bresson, New York 1947


Se houver espaço no tempo, procurar-me-ei, às cegas, em busca de nada, por nenhures. Tentearei o escuro à espera das cores que se sentem por antecipação. Todas as matizes invisíveis que se alcançam quando se larga a compreensão e se avança sem rédeas pelos trilhos do vazio. Se há algo mais que caminho a ser feito pelos passos, encontrá-lo-ei. A força da surpresa justifica o esforço desmiolado da procura. Porque nos prados da minha existência há espantalhos deslavados a lembrar-me de mim, e os rios que secaram sob pontes de outrora são como os moinhos isolados nas montanhas do ser, rudes figuras do tempo no teatro dos esqueletos.

Ver, rever…a presença isenta de tacto, a aleatoriedade dos instantâneos e a certeza das impressões abandonadas sem critério ou intenção. Que é isto que me interessa só porque não sei o seu lugar? Nem tão-pouco o substrato. É meu ciclo vicioso, a fadiga de me fazer confuso. Coisas simples, porque não? Ó somente coisas, tais como coisas, sem classificação, coisas que o são por o serem, nessa tão fiel exactidão. Coisas….Raios! Tenho cansaço deste cansaço.

Bonita distracção esquadrinhar-me! Hei-de dar de caras comigo. E quando me vir, será como nada. Ali, defronte de mim, o que me escapa por me ser o que tanto me é sem me ser mais do que isso, como se houvesse outro modo de ser. A distância entre duas encostas deixa aflorar um vale. E há tamanha robustez neste motivo…

Há diferenças que não se vencem. Escurece e sobrevém uma suave acalmia. O repouso é resposta para que as coisas deixem de existir. Eu desapareço sempre que fecho os olhos…


João Vasco

domingo, 27 de janeiro de 2008

O princípio do fim


Não caibo em mim, me vejo

Um refém de meu desejo.

Que tamanho tenho?

Sou mais que meu alcance,

A fronteira que me desenho

É eu olhar-me de relance

E ver a medida de mim.

Ou serei eu tão pequeno

E esta dúvida é já aceno

De que eu suspeito ser assim

Uma linha do horizonte,

Uma coisa sem tamanho,

Um rosto a ver-se defronte,

Um tempo sem bocanho.

Ser-se como se é, desse modo,

Pedaço maior de espaço,

Corpo em forma de abraço,

Um jeito a que me acomodo.

Sem se saber como se faz tal

Tudo tão gasto, tão banal.

As coisas são a acontecer

Pela força inelutável dos modos,

Por entre o viver e o morrer

A água afinada a bolear os godos.

E isto depois de dito, onde está?

Não se fez diferente em nada,

Uma dúvida destas começará

Assim que esteja acabada.


João Vasco

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008


Sei-me hoje como posso saber-me sendo como me sou. E que isto é? É uma história contada como feita de verdade. Uma entrada na casa escusa que até pode ser de mim. Um enigma, um vapor, um eco distante, uma sombra esguia, uma espera apertada por um sinal de destino que se concretize. Porque tanto se espera… As coisas feitas vazias como barcos encalhados nos momentos de espera desesperada de quem aguarda pelo sonho que se sonha no tempo sonhado.

Cada dia vê irromper a crueza da noite. Só queria ser pedaço de céu acariciado pelas estrelas num beijo cálido de luar. Mas debaixo das pedras há quanto silêncio! E os rios continuam a seguir para o mar…Ai, quem me dera ter mais que esperança desbocada! Ser grande dentro de mim, sentir o que sinto que possa sentir já a senti-lo, esvaziar-me de futuro, ser-me, já…

Nunca devia ter crescido, deixar-me menino, ter vistas curtas…

Pensar. Sempre se pensa, até quando se pensa em não pensar, pensa-se em não pensar. Se conseguisse parar, talvez voltasse a ser criança…Há coisas em mim que não sei como o são. Sou uma pergunta. Alguém me responde?


João Vasco

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007


Gestos perfeitos acontecem no silêncio. A melodia da ternura preenche todos os hiatos que as palavras desperdiçam. As palavras que são ditas ou que ficam por dizer, as palavras que nascem já feitas de morrer…

Não há mais que nada em tudo o que é nada mais que tudo. Assim é-se maior, é-se ardente e escrevem-se as páginas alvas do livro da intimidade.

A roda que gira, que vai, que avança em seu movimento perpétuo, jamais se cansa. Sente-se o excesso vibrante dos sentimentos nas partículas de vida. Suave e intensa acontece esta hora arrastada pelos princípios do prazer. O silêncio é uma tentação, nele é-se inteiramente humano a respirar o músculo da vida, força colossal de existir. Somos sangue fervilhante escondidos na candura de um olhar.

Silêncio! É tempo de viver!

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Intermezzo



Tenho que apanhar o tempo

Na estrada que desponta.

Meus passos, ao destempo,

São a vida que não conta.


E os sons que me perfuram

Como pensamentos ansiosos

Cedem-me ecos que perduram

Além dos vazios desditosos.


Revejo-me pelo sábio costume

Dos usos feitos no vício de fuga

E o ardor da chama de meu lume

É o palco em que tudo se conjuga.


Sou náufrago arribado à areia

Da praia esboroada de meu ser,

Uma morada de casa cheia

Este meu modo de me entreter.

João Vasco

segunda-feira, 19 de novembro de 2007



Quando se é uma gota no oceano, um grão de areia no deserto, uma árvore na floresta, as palavras não ganham corpo, esvaecem como poeira à mercê do vento. Estes conceitos insepultos ficam latentes, à espera que um instante futuro os faça manifesto explícito da alma. Mas não há nada mais que isto quando a voz não é ouvida. Sem ouvintes entranha-se o silêncio. Quanto silêncio se suporta? Quando o silêncio é mais que interstício perde-se o ritmo da dança. Abraça-se o seio da distância, sorvendo em tragos soluçantes os caminhos da loucura. Tamanha força da sinfonia da solidão! O silêncio é a minha morte. Só assim se faz minha vida.

João Vasco

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Solilóquio



Menina que te atreves pelos campos

Mimosa por entre a urze e o riacho

Mirada pelo sol e os céus escampos

És a alma, sentimento e recacho.


Mulher que te emancipas pelos dias

Graciosa nas verbas do momento

Com teu olhar singelo tudo anedias

És a luz, o fogo e o invento.


Musa vagante pelo sabor do mar

Suave em teu ondeante desvelo

Teu canto é embalo a marulhar

És a brisa, frescor e concelo.


Estarei a dizê-lo assim tão baixinho

Como um sussurro envergonhado,

Este, por ti, desmedido carinho

Que não ouças ser-te declarado?


João Vasco

quinta-feira, 8 de novembro de 2007



Pus-me a pensar onde estava, no momento em que atravessei o tempo como quem se detém e o vê passar por nós, como quem segue numa carruagem de um comboio e ao olhar para o exterior, pela janela, receia que não seja o trem que esteja a andar mas sim as árvores que compõem a paisagem. Onde? Queria dar com o lugar em que tal aconteceu porque não me canso de insistir na morte do desconhecido. Foi esquecimento ou simplesmente não consegui situar-me espacialmente? Malditos desacertos… Como se eu fosse um boneco de corda incapaz de dar a si mesmo um impulso de vida. Sobeja o tempo, escasseia o espaço.

Vejo as ruas dos meus passos e os vultos que as preenchem como se fosse um estranho a absorver a paisagem e a dinâmica de um lugar novo. Perdi a noção do caminhante que fui. Onde me ficcionei, onde fui figura…O tempo é um comboio e só agora percebi que os seus melhores lugares são os que não ficam à janela. Da janela vê-se ficar para trás intimidade e estética do sentir. E afinal foi assim, toldado por este teatro emotivo, que me distraí sem perdão. Em suma, que me importa isso? Quase nada. Quase…Desvarios…E já nem sequer vou à janela.

João Vasco

segunda-feira, 5 de novembro de 2007


Pintura de René Magritte

Tenho imagens, tenho ideias. Guardadas em cada meandro meu que desconheço. E minhas acções ou omissões são um reflexo desse reservatório. Será tanto meu quanto o julgo? Para onde quer que vá, a mim sempre regresso. É longo o caminho fruto do esforço. E o destino? Preocupa-me mais o caminho, é por lá que acontece minha viagem atempada. Quero seguir a corrente que flui…Não me tenho presente pelo que me resta. Como tudo me acontece incerto e sem prazo não sou mais que a dúvida do tempo e do acontecimento insolúvel. As coisas que me fazem são só minhas. Eu sou minha solidão. Temo as certezas agrestes do que é ser quem sou. Não há desvios na paisagem do meu ser. Como sou-me percebido pelo tempo que se faz não há tempo em que me perceba. E assim não me julgo capaz de retirar de mim o caos do céu. Se a noite me fizesse um ponto de vida que se visse eu seria mais do que um fogo de aparecer. Se…

Chuva clandestina, torrente desordenada, alvoroço por culpa das ideias, das imagens, mero resultado de existir. É somente o único modo de se ser. Ou tão-só o meu, aquele que consigo conhecer.

João Vasco


Se os dias fossem para além da noite não haveria amanhã.

João Vasco